Dr. Luís Eduardo
Entrevista 01 | Médicos – FEVEREIRO 2008
Atenção ao paciente, a base da prática médica
“O médico deve sempre estar atento à ciência, às novidades que tragam benefícios ao ser humano, mas não pode descuidar da atenção ao paciente, da conversa, do exame clínico.”
Dr. Luís Eduardo Barbalho de Mello – presidente do Conselho Regional de Medicina – Cremern
A tecnologia que ajuda a salvar vidas não pode criar barreiras e distanciar o médico de seu paciente. Quem afirma é o cirurgião Luís Eduardo Barbalho de Mello, 49 anos, em exercício na presidência do Conselho Regional de Medicina do RN. Nessa entrevista exclusiva à revista Médicos, Dr. Luís Eduardo, 23 exercendo a medicina, adverte os colegas a não desumanizar a prática médica. O presidente em exercício do CRM falou ainda sobre a luta contra o exercício ilegal da profissão e pela valorização dos médicos que atuam em todo Rio Grande do Norte.
Médicos – Em 2007, o Conselho Federal de Medicina fez 50 anos. Qual foi o maior benefício trazido pelos avanços dos últimos tempos?
Dr. Luís Eduardo Barbalho de Mello – Com toda certeza, o maior avanço é o da informação. E com toda a facilidade que se tem em obter a informação técnica passamos, enquanto Conselho, a exercer melhor nosso papel. Os conselhos foram criados para fiscalizar o direito e o dever legal da medicina em todo o território nacional, de verificar o trabalho do médico, as condições desse trabalho e se a medicina exercida está trazendo benefícios e qualidade de vida digna para o cidadão. Mas acima de tudo fiscalizamos a legalidade da prática médica, do exercício profissional. E às vezes não é fácil, pela grande extensão do nosso país. Existem limitações de caráter estrutural que terminam por facilitar a atuação de leigos em alguns lugares.
Médicos – O exercício ilegal da medicina ainda acontece, então?
Dr. Luís Eduardo – Existe sim. Ano passado já precisamos fazer intervenção via Polícia Federal em Santa Cruz, cidade não tão longe, apenas 115 km de Natal para resolver um problema desse tipo, de alguém que se passava por médico na cidade e que estava clinicando com tranqüilidade, atendendo pessoas e prescrevendo diagnósticos e tratamentos. A medicina tem duas particularidades muito fortes: é a única profissão que dá o direito de tocar, de entrar na intimidade das pessoas, criando um elo muito forte; por outro lado, é instrumento que as pessoas precisam e por ele estão dispostas a disponibilizar recursos para uma determinada cura. Essas duas características, juntas, geram mercado para a ilegalidade. Diante do poder de convencimento de alguém mal intencionado, uma pessoa fragilizada cai facilmente na armadilha.
Médicos – E como fiscalizar e alertar para esse perigo?
Dr. Luís Eduardo – No caso da fiscalização, não é fácil, pois é preciso percorrer todo o Estado e nem sempre temos os recursos para o deslocamento. Mas procuramos descentralizar o máximo nossa atuação e investir nas campanhas informativas junto aos médicos e à população. O interior do Estado é mais vulnerável com a crise da saúde, pois como as pessoas não conseguem ser atendidas pela saúde pública vão procurar qualquer alternativa e se um médico se apresenta e cobra barato pela consulta, logo o paciente disponibiliza o recurso, sem a garantia de que será atendido de forma adequada. Dificilmente, o paciente procura se certificar de que o profissional é habilitado, tem diploma de Medicina e registro no CRM. Nós sempre estamos chamando atenção dos poderes públicos, do Ministério Público, dos administradores, da classe médica e da população para que denunciem ao primeiro sinal de uma irregularidade.
Médicos – E que sinais seriam esses?
Dr. Luís Eduardo – É estranho, por exemplo, o médico emitir sempre um mesmo diagnóstico, uma mesma prescrição e os mesmos exames, sempre superficiais, para todos os casos que passam pelo seu consultório, ou mesmo indicar tratamentos que nunca dão resultados ou são estranhos. É, no mínimo, um sinal de que algo está irregular, fora do comum e que deve ser investigado. Nós orientamos as pessoas a formalizar denúncias ao Conselho, sempre que identificarem algo estranho ou anormal em um atendimento. E alertamos: o médico deve estar preparado para fazer um bom exame físico, oferecendo hipóteses diagnósticas relacionadas com o que o paciente sente e, acima de tudo, tratamentos que resultem na melhora do paciente. Um hábito que as pessoas deveriam ter e não têm é, ao agendar uma consulta, sempre verificar se o médico tem registro no CRM e se ele tem a habilidade para a especialidade que se propõe a clinicar.
Médicos – Os avanços tecnológicos transformaram a medicina. O senhor acredita que isso foi o fio condutor de uma mudança na relação médico-paciente?
Dr. Luís Eduardo – Com certeza. Se temos diagnósticos mais precisos e melhores chances de cura foi graças à evolução tecnológica. Mas a maior preocupação é não desumanizar a prática médica. O médico deve sempre estar atento à ciência, às novidades que tragam benefícios ao ser humano, mas não pode descuidar da atenção ao paciente, da conversa, do exame clínico, tudo isso é base da prática médica. Infelizmente, isso ocorreu em parte. Defendemos que a tecnologia, e o Conselho vai trabalhar muito isso agora em 2008, seja usada também de forma educacional, como instrumento de atualização profissional, através de videoconferências, teleconferências e telemedicina. Educar para prevenir e evitar erros médicos.
Médicos – O que é fundamental para o futuro?
Dr. Luís Eduardo – Preservar a ética, que é regida pelo Código de Ética Médica, perante o paciente, os nossos pares, as instituições e a sociedade. Toda a capacidade médico-científica-tecnológica capitaneada precisa ser usada de forma ética, sem trazer prejuízo econômico a quem quer que seja, principalmente ao paciente. A necessidade do saber mais existe. No entanto, o conhecimento deve ser acumulado em favor da saúde do ser humano. Necessariamente, não precisamos utilizar toda a tecnologia que está no mercado, só porque ela existe. Precisamos sim analisar o que o paciente precisa, do ponto de vista terapêutico, e a relação custo-benefício. Se um procedimento onerar sem ter o efeito desejado, com certeza, não será o melhor caminho.
Médicos – O profissional médico é tão valorizado e bem remunerado como se pensa?
Dr. Luís Eduardo – Essa é uma das nossas maiores preocupações. Nossa profissão precisa sim ter melhor remuneração, isso no serviço público e privado. Hoje, o médico cumpre jornadas absurdas, e ainda assim não tem uma remuneração justa para cuidar bem de si, pois tudo tem um custo muito alto. Leitura custa caro. Lazer custa caro. Alimentação custa caro. Na verdade, estamos como quase todos os brasileiros, trabalhando para sobreviver. E como cuidar bem de alguém se o profissional não tem boa qualidade de vida e não está satisfeito?




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