Dr. Álvaro Barros

Entrevista 06 |  Médicos – NOVEMBRO 2008

Médico não é técnico, cuida de vidas

“Cuidamos de pessoas e, com a globalização, é preciso uma atenção muito grande nesse relacionamento. Infelizmente, o sistema induz a desumanização”
Dr. Álvaro Roberto Barros Costa – presidente da Associação Médica do Rio Grande do Norte e atual presidente do Departamento de Estimulação Cardíaca Artificial 
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Dr. Álvaro Barros

 Presidente da Associação Médica do Rio Grande do Norte – AMRN, o cardiologista Alvaro Roberto Barros Costa, 48 anos, formado há 24 anos, especialista em eletrofisiologia e marcapasso, é nosso entrevistado. Dr. Álvaro fala da valorização da CoopMed, um braço cooperativo da AMRN, que reúne médicos de 18 especialidades, e aponta o SUS como “um modelo excelente, que não avança por falta de financiamento adequado”. Ele lembra a necessidade de humanização da profissão: “O médico não é um técnico, cuida de vida e isso exige uma atenção muito grande”. O cardiologista foi presidente da Sociedade de Cardiologia do RN (1996/1997 e 2002/2003), da Sociedade Norte/Nordeste de Cardiologia (1999/2000) e é o atual Presidente do D.E.C.A. (Departamento de Estimulação Cardíaca Artificial). Confira!
Médicos – O que hoje seria prioridade para a classe médica?

Dr. Alvaro Barros – A atividade médica precisa evoluir para um controle absoluto da sua atividade econômica, tanto pela valorização da sua jornada de trabalho quanto na fiscalização do seu retorno financeiro. O cooperativismo é a única forma estrutural que o médico tem para que possa avançar nas lutas médicas para melhores condições de trabalho, valorização da CBHPM e para atingir as metas determinadas pela Fenam (Federação nacional dos Médicos), como o piso salarial de R$ 7.500,00 para 20 horas e de R$ 15 mil para 40 horas. O cooperativismo é o melhor canal para negociar essas conquistas, seja no setor público ou no setor privado.

Médicos – A Associação Médica do RN tem um braço cooperativista. Ele seria um instrumento ideal para essas intermediações?

Dr. Alvaro Barros – A CoopMed tem hoje 18 especialidades médicas agregadas e, com certeza, ela é o instrumento ideal para viabilizar as parcerias público-privadas, sabendo se colocar no seu lugar, que é de complementar ao sistema SUS. Hoje, a Cooperativa já atende, através das parcerias com o setor público, a população mais carente, que recebe atendimento na rede privada, uma assistência de alto nível, com a mesma distinção que um particular ou conveniado a plano de saúde. Isso humaniza o atendimento. Evidentemente que é necessário, e nós que representamos as instituições médicas, devemos incentivar o governo a aumentar seus efetivos, através de concursos públicos para suprir a rede pública. Mas a parceria público-privada, nos três níveis – federal, estadual e municipal – através da CoopMed, é salutar, pois funciona como retaguarda. Esta simbiose é necessária para atender aquela parcela do SUS que não dispõe de quadro efetivo suficiente. A cooperativa também é um grande instrumento juntamente com as entidades médicas (Sindicato, AMB e CRM) para consolidação do plano de cargos e salários.

Médicos – E na área privada, o senhor acredita que esse braço cooperativo terá força?

Dr. Alvaro Barros – A CoopMed tem uma vocação complementar à Unimed. Foi idealizada para ser reguladora e disciplinadora dos contratos médicos com as seguradoras e planos de saúde, e esse será seu papel na área privada, além de determinar os avanços e correções do valores da CBHPM junto a estes organismos. Poderemos dessa forma coibir o desrespeito aos contratos acordados, e a cobrança de juros pelo abuso de glosas indevidas. A CoopMed terá a missão de abrir uma grande discussão, entre a classe médica, para a conscientização dos ganhos que os médicos poderão ter, fazendo contratos através da mesma, tanto de pessoa física ou jurídica. Essa deve ser uma bandeira da Associação Médica para a organização da profissão. O cooperativismo agrega, aumenta a auto-estima e protege o médico no mercado de trabalho, quanto a honorários, honradez de contratos e fluxo econômico-financeiro.

Médicos – Do ponto de vista político, como o senhor pensa a Associação Médica?

Dr. Alvaro Barros – O médico e suas instituições precisam manter um diálogo permanente no Legislativo Estadual e Municipal, instrumentalizando-os para a criação de projetos de lei que melhorem e tornem mais fluida a atividade da profissão, consolidando de uma forma ordenada a parceria público-privada. Acredito ser necessária a criação de um organismo independente que possa fiscalizar os contratos públicos melhorando assim tanto sua performance quanto a optimização de recursos para a saúde como um todo. Os médicos através de suas instituições têm o dever de cobrar eficiência na gestão pública no tocante à saúde de forma positiva e enérgica.

Médicos – Dr Alvaro, o que o senhor diz de toda essa evolução tecnológica, que tem colocado o profisisonal em segundo plano?

Dr. Alvaro Barros – Nesse aspecto acredito que é preciso levantar um debate de âmbito nacional focado na valorização do profissional e da profissão, afastando essa perspectiva de valorização da sofisticação dos equipamentos. Por trás das máquinas, há um médico e é ele que faz a diferença. Mas hoje há uma inversão de valores: o melhor hospital não é o que tem o melhor corpo clínico, mas o que tem os melhores equipamentos. O médico não é um técnico, ele cuida de vida, quanto mais humanizado o atendimento melhor. Cuidamos de pessoas e, com a globalização, é preciso uma atenção muito grande nesse relacionamento. Mas o sistema já induz a desumanização: se atendemos 30 pacientes por turno onde vai ter espaço para humanização? Também é preciso que a população saiba que a formação de um médico é extremamente longa, dolorosa e cara.

Médicos – E quanto à formação do médico? Os jovens profissionais saem preparados?

Dr. Alvaro Barros – Acredito que há muita falha. A formação complementar do médico, com a residência, é fundamental. Ela precisa ser mais democratizada e as entidades médicas têm que estar atentas a isso, principalmente porque os jovens médicos estão saindo da Faculdade, ainda muito verdes direto para a prática médica. Os recém-formados precisam ter um suporte de formação continuada bem estruturada, este é um grande desafio.

Médicos – E quanto ao SUS, porque esse modelo é tão ineficiente?

Dr. Alvaro Barros – Na verdade, o SUS é um projeto em construção. É uma idéia magnífica, mas é impossível a universalização onde não há financiamento. É importante dizer que o Brasil é um país continental e esse já é um fator agravante. Por isso, sempre tem que ser avaliada a viabilidade financeira: por exemplo, uma cirurgia às vezes sai mais barata sendo feita numa parceria público-privada, do que num hospital próprio do Governo. É preciso desmistificar que o setor privado é um vilão, visando apenas lucro. O setor privado no seu papel complementar, friso bem, é importante e tem trazido muitos benefícios.

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