Dra. Sheyla Caldas
Edição 08 – Saúde Bucal | ABRIL 2009
Odontogeriatria: nova realidade
Dra. Sheyla Caldas Costa de Medeiros – Odontogeriatra
O aumento da longevidade do ser humano é uma realidade observada atualmente nas populações mundiais. No Brasil, à semelhança de diversos países do mundo, o número de idosos está crescendo rapidamente. E como a Odontologia participa desse processo de envelhecimento populacional, nesta nova realidade?
Do ponto de vista odontológico, a condição de saúde bucal da população idosa brasileira mostra um alto índice de cárie dentária (principalmente de raiz), doença periodontal (gengivite e periodontite), edentulismo (ausência de dentes) parcial e total, câncer bucal, problemas oclusais e xerostomia (ausência de fluxo salivar) observados nos idosos, sendo que essas condições relacionam-se diretamente com as condições de saúde sistêmicas e com o grande número de medicamentos usados por estes pacientes.
Daí a importância da prevenção e manutenção de uma saúde oral e geral adequadas nesta faixa etária, uma vez que não é possível separar a cavidade bucal do organismo como um todo. Além desses problemas bucais citados, encontramos nos idosos ainda a estomatite protética (causada por próteses mal adaptadas ou má higienização das mesmas), síndrome da ardência bucal, halitose, dificuldades na deglutição, na mastigação e na fala e disgeusia (sabor alterado dos alimentos).
Os idosos constituem um grupo especial com estilo de vida, condições sociais e de saúde e necessidades bastante diferentes do restante da população. Muitos deles apresentam-se com doenças crônico-degenerativas, em geral decorrentes do sistema cardiovascular (por exemplo, hipertensão arterial, acidente vascular cerebral), além de diabetes mellitus, osteoporose, neoplasias (cânceres), artrite, doença de Alzheimer, doença de Parkinson, problemas psiquiátricos, entre outros, que freqüentemente afetam a qualidade de vida desses indivíduos e alteram a normalidade de um tratamento, seja ele de saúde geral ou de saúde bucal.
Assim sendo, os profissionais da área de saúde e, especificamente, da saúde bucal, deverão tomar conhecimento das condições bucais dessa população e correlacionar os problemas bucais com as doenças cardiovasculares, com o diabetes, com a pneumonia aspirativa causada por bactérias da boca, com os problemas estomacais, além conhecer os medicamentos usados por esses pacientes e suas reações adversas (por exemplo, medicamentos usados para artrite podem mascarar a dor e problemas bucais).
A Odontologia deve estar lado-a-lado com a Medicina e com as demais áreas de saúde, para dar sua parte na prevenção dos problemas do idoso, destacando o valor primordial da boa alimentação para a saúde geral, orientando para transformar uma dieta cariogênica (comum na terceira idade) em outra saudável que proporcionará melhores condições orgânicas e ensinando higiene bucal eficiente, com redução do acúmulo de placa bacteriana e controle da doença periodontal, além de orientar para uma condição física adequada, com cuidados médicos e odontológicos regulares. É preciso alertar para o papel que tudo isso tem na reintegração mastigatória, fonética, estética, social e funcional para a plenitude psicológica e a melhora na qualidade de vida do indivíduo idoso.
Outro ponto a ser considerado no atendimento odontológico do paciente idoso é que cerca de 70% dos remédios normalmente ingeridos pelos idosos (como antidepressivos, ansiolíticos, anti-hipertensivos, antidiabéticos, drogas usadas para doença de Alzheimer e Parkinson, dentre outras) têm efeitos colaterais na cavidade bucal, como xerostomia, formação de aftas, dificuldade de cicatrização, hiperplasia gengival, síndrome da queimação bucal, além de aumentar o número de cáries, inclusive de raiz, e a incidência de complicações periodontais (trazendo incômodo ou abandono no uso de próteses). É bom lembrar que os idosos sofrem, em média, de 4 a 5 patologias diferentes e, por isso, fazem uso de muitas medicações no seu dia-a-dia (8 a 10 remédios diferentes).
Para tratar da saúde bucal de um paciente idoso, utilizam-se todos os recursos da moderna odontologia clínica, apenas adequando-os à realidade e à necessidade de cada caso. Todos os tratamentos utilizados em outras faixas etárias, podem ser aplicados à terceira idade, devendo-se ajustar os planejamentos de acordo com as doenças gerais apresentadas e com sua expectativa de vida provável.
No atendimento odontogeriátrico, o odontogeriatra deve integrar-se aos demais profissionais que estão cuidando do paciente e fazer parte de um grupo multidisciplinar, saindo do isolamento do seu consultório para o convívio e atendimento em hospitais, instituições para idosos (casas de repouso/asilos), atendimentos domiciliares, em programas de saúde da família, grupos de 3° idade e na formação técnica de cuidadores.
Os idosos, seus familiares, médicos, cuidadores e toda a equipe devem estar cientes dos potenciais problemas odontológicos no idoso e da importância da higiene bucal diária.



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