Dr. Ernani Rosado
Edição 03 – Fala Professor | Médicos – JULHO 2008
Natal e os transplantes
Carlos Ernani Rosado Soares – Médico e professor Universitário da Faculdade de Medicina da UFRN
Por dizer respeito a cada um e a todos, a Medicina sempre é foco de atração dos noticiários da imprensa escrita, falada e televisionada. Infelizmente, os enfoques nem sempre são os mais agradáveis, e, por vezes ensejam análises e comentários apressados que, ocasionalmente, não conseguem refletir a realidade dos fatos.
Nos últimos meses, as notícias dizem respeito, quase que invariavelmente, a problemas relacionados com a prestação de serviços médicos, principalmente por parte do poder público, mas ainda freqüentemente envolvendo a Medicina privada aí representada pelos planos de saúde.
Dessa forma, a população não pode aquilatar o significado dos fatos que tiveram lugar duas semanas atrás.
A história nasce da tristeza, materializa-se pela grandeza e generosidade de seus participantes, e vai refluir na esperança renovada de alguns.
Dois óbitos que enlutaram suas famílias ensejaram gestos profundamente cristãos de que os entes queridos cujas mortes se pranteava continuassem vivendo, e mais que isso, minimizando tantos sofrimentos dos seus irmãos.
Sensibilidade, desprendimento, generosidade, altruísmo, compreensão são alguns e ainda poucos atributos para caracterizar a atitude.
Foram feitos em Natal, em hospitais diferentes quatro transplantes renais e um cardíaco, além das córneas, acrescentado ainda de mais um transplante renal intervivos. Pari passu, outro transplante de medula foi efetuado com sucesso.
Por problemas de compatibilidade, o outro coração e o outro fígado foram para Curitiba e Recife, respectivamente. O fato não se dá por acaso. A inserção do RN na Central dos Transplantes é altamente auspiciosa. Estes implicam no atendimento de uma série de necessidades, altamente complexas, de pessoal, material e estrutura. Os transplantes de córnea foram os pioneiros, começando em 1979, e já chegando perto da casa do primeiro milhar. A média anual já atinge perto de uma centena. Transplantes renais já foram realizados mais de setenta, com um percentual de sucesso comparável às boas estatísticas mundiais.
Mais desvanecedor para aqueles que, como eu, participaram da formação médica do Rio Grande do Norte desde o seu início, é que praticamente todos os profissionais envolvidos aqui estudaram. No próximo ano, serão cinqüenta anos que Onofre Lopes, com sua visão e tenacidade, criou a Faculdade de Medicina. Até ali, todos tínhamos que procurar formação profissional distante de nossas famílias e do nosso ambiente, com as dificuldades de todo tipo inerentes ao processo.
Na evolução dos fatos, vinte anos atrás, o natalense que necessitava fazer um cateterismo cardíaco, diagnóstico que fosse, tinha que pagar o complicado ônus financeiro e logístico de ir até Recife. Hoje, são milhares de procedimentos, inclusive terapêuticos que aqui já foram realizados. E isso diz respeito a tantos e tantos outros setores da Medicina. É gratificante ver que nossa cidade, além de marchar ao lado do que há de melhor e de mais moderno, já passa a se tornar referência em várias especialidades e são os dos outros estados que para aqui chegam na busca de soluções.
Foi, pois, com orgulho e satisfação que acompanhei essas realizações feitas por profissionais da maior competência e que tive a honra de tê-los tido como alunos no passado.



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